Ser mãe de fissurado

Ter um filho fissurado é ser escolhida para cuidar e ajudar uma pessoa a seguir um caminho com mais auto estima, a superar um problema que não é apenas físico, mas que envolve e muito o psicológico. Ele não possui nenhuma deficiência e isso tem que ser reforçado, mas se sente diferente dos outros por possuir uma cicatriz e a fala ser um pouco diferente dos outros e por incrível que pareça ninguém quer ser diferente, principalmente na adolescência, querem ser igual aos outros e aí, buscamos em Deus a melhor maneira de mostrar tudo de bom que este ser já possui para ser feliz. Que a única limitação que ele pode possuir está dentro dele e deve ser superada e olhada como mais um aprendizado na estrada da vida. Que ele pode tudo e basta querer e seguir em frente com amor e fé. Nunca tratar como um coitadinho, pois ele é igual a qualquer pessoa, e deve ser preparado para o mundo.

É uma tarefa difícil, mas compensatória, uma trajetória de muitas vitórias a cada degrau e eu que tenho hoje um filho aos trinta anos de idade e que já passou por muitas coisas, agradeço a Deus e ao Centrinho-Bauru, todo o apoio que precisei. O Centrinho não é apenas um hospital que trata de fissurados, é um lugar que trata o paciente em todos os detalhes, em que se está nas mãos de mestres e não apenas médicos e que acima de tudo trata de nossos filhos como seres humanos e de nós como mães que nos angustiamos, sofremos, ficamos inseguras e com o coração pequenininho a cada vez que nossos filhos entram num centro cirúrgico. Eles são profissionais que entendem os sentimentos e respeitam cada limitação a que possuímos e oferecem um tratamento completo acompanhando todo o desenvolvimento físico e psicológico que essa criança vai passar. Por isso agradeço a Deus a existência do Centrinho e o presente que recebi ao ter esse filho tão maravilhoso fazendo parte de minha vida e com quem eu também aprendi e cresci como ser humano.

Eunice Felinto Nascimento, mãe do Hugo.

Fissurado pela Mãe - Hugo

E como enfrentar essa ‘diferença’

No momento da descoberta que meu filho nasceria com lábio leporino e fenda palatina, meu mundo desabou, pois eu não tinha nenhum conhecimento do que se tratava. Ficava imaginando como  seria a vida do meu filho, como ele se alimentaria, se ele sentiria alguma dor ou incomodo, se ele iria sofrer com algum tipo de preconceito… Preocupações normais de qualquer mãe, ainda mais sendo o primeiro filho.

Me permiti chorar e sofrer apenas naquele dia. No outro, enxuguei as lágrimas, e ergui a cabeça. Eu sempre aprendi que tudo na vida tem o lado positivo. Afinal, ele tinha uma saúde ótima, estava se desenvolvendo lindamente, eu estava muito saudável, minha vida é maravilhosa. Comecei então a me informar sobre esse assunto, procurei todos os profissionais que estavam ao meu alcance, e somente assim me acalmei e voltei a curtir esse momento maravilhoso que é estar grávida.

Não importa que ele é diferente, meu amor por ele, só aumentava!

Sim, ele é perfeito!

O início da minha gestação foi tudo maravilhoso e perfeito. Nunca me senti mal, não sentia enjoos e nenhuma indisposição. Era pura felicidade, curtição e mil expectativas para conhecer o nosso lindo Théo.

E como a rotina de muitas gestantes, chegou o dia de fazer a ecografia morfológica de 20 semanas. Foi neste dia que descobrimos que ele nasceria um pouco diferente, mas em nenhum momento fugindo das nossas expectativas, ele apenas era portador de lábio leporino e fenda palatina. Apenas isso, nosso filho é perfeito!

fissuradopelamae - théo

Para quem não sabe muito bem do que se trata, vou explicar brevemente. Fenda lábio palatina (ou mais comum lábio leporino e fenda palatina) é uma anomalia que ocorre bem no início da gestação, lá pela quarta semana, mais ou menos. Essa anomalia é apenas uma abertura na região do lábio superior, podendo se estender até o palato do bebê (famoso céu da boca). Existem vários tipos de aberturas, podendo ser somente no lábio, sendo uma ou duas fendas, pode ser somente no palato, sendo totalmente aberto ou fendas menores… Mas todas, tratáveis!

E agora, como irá se chamar?

Depois que se sabe o sexo do bebê, ou dos bebês, vem a dificílima tarefa: que nome escolher? Nossa, no meu caso, foi quase uma tarefa de gincana, de tão difícil que foi! São tantas opções, mas no fim todo nome tem algum detalhe que eu não gostasse… E agora? Afinal, é uma decisão para a vida toda.

As minhas preferências sempre foram os nomes curtos, que fossem mais fáceis de falar e até escrever. Queria um nome bonito, porém diferente. Forte, mas com sua delicadeza. Que combinasse com nossos sobrenomes. Com um significado bonito (coisa de mulher). E o pai, bom, ele não sabia qual diretriz, simplesmente não gostava de nenhum nome. Fácil, né?

Na verdade, acho que o mais importante é, depois, quando a criança crescer, se sentir confortável com este nome. Se eu pudesse dar uma dica seria: converse muito e desde cedo com o seu parceiro sobre os nomes, escreva e fale alguns nomes em voz alta, chame o bebê. Existem também diversos sites e livros que podem ajudar com a escolha do nome e seus significados.

Mas voltando ao meu caso, eu tomei a decisão de começar a chamar pelo nome que eu mais amava: Théo. Durante certo tempo, conversava com a barriga e sempre citava esse nome. E em alguns dias, já estava decidido :)

AS PRIMEIRAS SEMANAS DE GESTAÇÃO

Estar grávida é algo indescritível… A felicidade era tanta, que já saí contando para todo mundo – algumas mulheres preferem esperar até as primeiras 12 semanas estarem completas, pois é neste período que é feita uma das ecografias mais importantes.

Depois de toda essa explosão de felicidade, começa a árdua procura pelo obstetra perfeito (para quem ainda não tem um de confiança). Eu já havia consultado com alguns médicos do meu convênio médico, mas nenhum que eu confiasse plenamente. Acho que toda mulher tem o direito de buscar o médico que mais confie, que se sinta melhor, pois ele é o grande responsável por trazer o bebê ao mundo de forma segura.

Optei por fazer o pré-natal com a minha querida prima, ginecologista e obstetra da família, de extrema confiança e super atenciosa – nosso anjo Rosita. Com ela tinha certeza de que estava muito bem acompanhada pois ela sempre foi muito cuidadosa em todos os detalhes. O acompanhamento com ela incluía pilhas de exames de sangue, ecografias a cada mês… Estava muito segura! Foi ela quem descobriu que com 12 semanas eu apresentava placenta posterior baixa e já iniciei aqui pressão alta.

fissuradopelamae - primeiras semanas2

Foto Pinterest

À partir daqui, cuidados redobrados!

POR QUE CRIEI UM BLOG?

Bom, acho que toda gestante, sonha com o a gravidez perfeita, o bebê perfeito, o mundo perfeito para seu filho… E foi exatamente assim que aconteceu quando esperava meu bebê, apenas com alguns detalhes bem importantes. Além de ter pressão alta e forte tendência a desenvolver uma pré-eclâmpsia, nosso pequeno Théo tinha uma má formação no rosto: lábio leporino e fenda palatina. E como se não bastasse, um parto prematuro nos surpreendeu.

E ainda assim, considero que tudo correu perfeitamente bem!

Com um sorriso imenso no rosto, inicio este espaço com o objetivo de contar tudo e um pouco mais sobre a nossa experiência. Com o exemplo, quero ajudar outras mamães e seus anjos a passar por tudo da melhor forma possível.  E é claro, gostaria de saber das histórias de outras mamães que também passaram ou ainda estão passando pela mesma situação.

Mãos à obra!

fissuradopelamae - pri pança