Dentição – já devo me preocupar?

Faz diaaaas que eu queria escrever para vocês, mas vocês bem sabem que vida de mãe não é nada fácil, haha! Então, voltamos com o blog, e na medida do possível – SEMPRE QUE CONSEGUIR – vou vir aqui contar um pouco da nossa vida e como anda o processo do meu ex-fissuradinho Théo.
Théo já está com 5 anos, parece que faz muitoooo mais tempo que ele passou pelos procedimentos cirúrgicos, as vezes olho para ele e nem acredito. A última cirurgia dele foi a palatoplastia com 1 ano e depois disto precisamos apenas de revisões anuais com o cirurgião plástico dele e também com o otorrino que colocou os drenos nos ouvidinhos dele.
Tivemos uma consulta no cirurgião faz 1 mês. Quando marcamos a consulta, achamos que o palato dele estava estranho, com algumas curvas e uma parte bem profunda no meio, mas tivemos o retorno de que a boca dele está linda-perfeita-maravilhosa :D
Ele tem um dentinho extra no céu da boca e estamos sempre monitorando para saber como vai ficar isto. Nesta consulta, nosso Dr. informou que o tratamento dos dentes dele só vai começar quando os primeiros dentinhos caírem… só então veremos quais são dentes de leite e se vai vir todos os dentes permanentes. Somente depois disto que começa toda a função de dentistas, aparelho, extrações, etc.
Então, de momento, vamos mantendo uma boa escovação e aguardando os primeiros dentes caírem.

Sessão Newborn – Fotos do pequeno Caetano

Ontem fiquei super emocionada olhando as fotos do ensaio newborn do pequeno Caetano.

Nos dias de hoje, as fotos ‘newborn’ estão cada vez mais lindas, que são aquelas fotinhos tiradas nos primeiros dias de vida do bebê, onde ele fica super à vontade e num soninho profundo. Eu não fiz quando o Théo nascer, talvez por um cuidado excessivo de não tirar ele de casa e também por não ter achado, na época, um fotógrafo que fosse até a minha casa. Agora, olhar fotos de recém nascido, e ainda fissurado? Não tem como não me emocionar, são uns anjos nossa… fiquei arrepiada quando vi. Como pode ter gente que ficar com aqueles olhares de preconceito, com um milagre assim tão lindo? E pelo visto, o Caetano foi um príncipe mesmo durante as fotos, olha a serenidade que passa… Amadinho <3

Mamães, fotografem muitooooooo seus filhos!

Além das fotos do Caetano, tenho mais algumas aqui que amo ver, que são outros bebês fissurados que encontro nas minhas pesquisas na internet. Iluminam meu dia!

3 meses após a palatoplastia

Voltando um pouco no tempo para contar de mais uma batalha vencida do Théo.

Passados 3 meses da palatoplastia, cirurgia corretiva da fenda palatina, fomos na reconsulta com nosso querido Dr. Collares – sempre me dá um nervosismo quando temos que ir lá, mas ele é tão atencioso e confiante, que sempre saímos de lá com sentimento de missão cumprida. Várias dúvidas sobre a evolução do Théo e o tratamento, mas vamos por parte:

- palato 100% – foi com imensa alegria que escutei isso do médico, palato do Théo lindo, perfeito, sem nenhuma fenda ou alteração que precisasse nos preocupar. A garganta dele estava normal, assim como o ‘sininho’ dele que antes era dividido ao meio, e agora está normal.

- dentição – bom, aí não tinha muitas mudanças. O Théo até aquele momento já tinha vários dentes na parte da frente da boca, e de um lado. Do lado que ele tinha a fenda no palato, não tinha nem sinal de dentes. Isso me preocupava, pois me parecia que ali não haviam dentes, mas o cirurgião me acalmou dizendo que isso é dos males o menor, dentes são mais fáceis de corrigir e esse não era um assunto que eu deveria me preocupar naquele momento. Tudo ao seu tempo.

- fala – essa sim foi uma grande notícia. Ele pediu que o Théo falasse algumas palavras, para que ele avaliasse se tinha alguma alteração sonora… Todas palavras com ‘p’, pois é um som difícil para quem pode ficar com a voz mais anasalada. Foi quando ele falou ‘papai’, ‘pé’ e mais algumas outras palavras, super bem e bem certinho. Ou seja, ESTAMOS LIBERADOS DA FONO! Iupiiiiiii!

Sem médicos pelos próximos meses (a não ser o otorrino, que ele tinha avaliação a cada 2 meses para verificação do dreno). Coisa mais linda da mamãe :)

Meu queridão faceiro aguardando pelo médico.

Meu queridão faceiro aguardando pelo médico.

Um dos grandes desafios da maternidade: amamentação e alimentação

Ontem tive um pedido muito especial de uma mãe, para contar um pouco sobre todo o processo de alimentação do Théo, desde o nascimento. Vamos lá:

Ao nascer – bom, primeiro vou relembrar que ele nasceu prematuro e corria risco de infecção uterina, então os primeiros contatos com o leite materno foi via sonda na UTI, eu odiavaaaa aquilo, mas foi necessário. Logo que ele ficou mais forte, tiramos a sonda e colocamos meu fissurado para mamar no peito. Bem IMPORTANTE salientar: os bebês prematuros, assim como fissurados, não tem força para sugar, então a mamãe deve sim apertar um pouco a mama para que o leite saia mais facilmente. Tinha muitos momentos que ele não queria mamar, pois para ele não era ainda um momento legal. As enfermeiras de aleitamento, sempre me ensinaram a acordar bem o Théo à cada 3 horas, para que isso se torne uma rotina prazerosa para ele. Então, eu acordava, conversava, brincava um pouco, e aí colocava ele para mamar, sempreeeee apertando a mama para que ele sinta bastante leite entrando na boquinha, e que ele entenda que é dali que vem o leitinho, que passa a fome, que sente o cheirinho da mãe… Ah, e eu tentava nos primeiros dias e meses ficar mais sozinha com ele, isso o deixava mais calmo. Tem um texto bem legal aqui no blog, onde a minha amiga Jana, especialista em aleitamento, fala um pouco sobre as principais dúvidas sobre amamentação: pode acessar por aqui.

Depois dos 6 meses – no meio disso tudo, eu tive que tirar o peito pois ele perdia muito peso então optei pela mamadeira… mas após a primeira cirurgia corretiva do lábio leporino, que foi com 4 meses, eu resolvi que tentaria mais uma vez fazê-lo mamar no peito. E CONSEGUI (tem um post que conto bem detalhado como foi essa etapa, aqui). Quem acredita, sempre consegue o que quer: o Théo havia passado 3 meses só com mamadeira, passou pela queiloplastia, ficou 30 dias sem mamadeira, e depois voltou para o peito! Óbvio, foi beeeeem cansativo, eu tinha que me esforçar muito para que ele sentisse prazer em mamar, mas foi algo mágico. Tivemos a ajuda de uma enfermeira especialista em aleitamento e também da fonoaudióloga para fortalecer os músculos da boca. Mas, deu certo!

Com 1 ano – mais uma surpresa, aos 8 meses, ele desenvolveu Alergia à Proteína do Leite de Vaca – APLV, ou seja, não podia tomar leite em pó comum como complemento, e muito menos tomar meu leite sem que eu fizesse a dieta de exclusão da proteína. Quero relembrar que até aqui, ele nunca havia tomado leite em pó, desde que nasceu eu tirava leite materno a cada 3 horas para ele, somente leite materno foi o que ele tomou até então. Mas ok, aprendi a conviver com mais esse desafio, aprendi várias receitas sem leite, e bola pra frente. Sempre prezei muito as frutas e alimentação saudável, inclusive tive a ajuda da minha querida nutróloga para me dar dicas de pratos legais para ele.

Eu sentia que meu filho sempre achava que o momento de comer era ruim, e que a boca era um local de dor, e era afinal, mas agora, eu vejo que ele adora comer, adora sentar e fazer isso sozinho até. Por isso sempre repito: mãe deve insistir muitoooooo, acreditem, eu cheguei a levar quase 2 horas um dia para ele almoçar todo o prato de comida, e era preciso pois não tinha muito peso. E outro conselho que sempre dou: utilizem de todos os especialistas possíveis: o Théo tinha acompanhamento com gastro, nutróloga infantil, fono… Hoje posso dizer que a alimentação dele está nota DEZ!

Mãe sempre atenta

Bom dia 2015 :D

Estava eu aqui acordando, e pensando, que mãe não descansa, né, vive 24 horas preocupada com o filhotinho. Aí me lembrei, que mesmo depois de já ter passado pelas duas cirurgias (queiloplastia e palatoplastia) eu ainda perdia hooooooras preocupada com ‘os próximos passos’ do meu fissurado. E duvido qual mãe não faz igualzinho à doida aqui.

fissurado pela mãe - meu principe

O que eu queria contar hoje mesmo, é que, depois de liberado do pós operatório da palatoplastia, que foi a última cirurgia dele, eu levei em todas os médicos que sempre acompanhavam ele, para uma revisão. Na verdade, o cirurgião sempre me falava que não tinha necessidade alguma, pois ele via o Théo super bem, mas eu sempre preferi zerar minhas dúvidas. Levei na gastro, levei na nutróloga e o mais importante, fui conversar com a fonoaudióloga. Ele não precisou fazer mais nenhum acompanhamento semanal com a fono, mas ela me deu dicas preciosas para que eu pudesse ajudar o Théo a ter a fala e alimentação melhor possível.

Primeira preocupação: depois da cirurgia, a alimentação dele se desregulou completamente, ele não queria comer mais nada, tinha receio de tudo que fossemos colocar na boca dele. Passamos acho que 2 horas falando com a fono, e ela nos dando uma série de dicas para estimular a alimentação saudável que ele sempre teve e eu sempre prezei muito. Importante falar que ele não tinha mais nenhum problema de saúde, e sim manias do pós operatório, afinal, 30 dias é bastante para um bebê de 1 ano. Uma das dicas que considerei mais valiosa foi: os pais são o exemplo dos filhos. Em resumo, eu e o pai começávamos a comer, e esperávamos que isto despertasse nele a vontade de ‘nos imitar’. E o legal é dizer, que nessa fase do Théo, ele já notava muito do que a gente comia e queria comer a mesma coisa que nós, então não adianta oferecer uma cenoura para ele e comer batata frita ao lado. E aos poucos, ele foi voltando a alimentação normal (isso foi bem demorado, meses levaram, mas não desista).

Segunda preocupação: a fala. A fala na vida dos fissurados, é um dos itens que mais preocupa os pais, pois gera uma série de pensamentos futuros, como preconceito que ele possa passar. A fono como sempre me ajudou com várias dicas, super simples, sem mistério algum: bastante conversa com ele, bastante estímulo para conversar, bastante coisas para ele sugar e alimentos de várias texturas para sempre estimular o paladar dele, e fortalecer os músculos da boca. E uma dica bem legal que tentei desde cedo: dar bebidas no copo com canudinho para ele sugar. Demorou meseeeeees para ele aprender, mas hoje, me dá o maior orgulho ver ele sugando no canudinho. É super difícil para quem nasceu com fenda lábio palatina sugar assim, pois é preciso fechar bem a boca e fazer grandeeeee força de sucção. E já li bastante que o tal do canudinho ajuda bastante na fala.

RESULTADO DISSO TUDO: fomos na consulta de 1 ano e meio no cirurgião, e ele liberou o Théo, ou seja, NÃO PRECISA FAZER ACOMPANHAMENTO COM A FONO, POIS A VOZ DELE ESTÁ ÓTIMA, SEM NENHUMA ALTERAÇÃO, SEM ESTAR ANASALADA.

Não tem coisa melhor, né? Meu filho indo no caminho certo :)

Meu pequenino lábio leporino | Fotos

Vira e mexe, tem gente curiosa em ver fotinhos do Théo quando ainda tinha a fissura no lábio. E querem saber, eu tenho o maior orgulho do mundo de mostrar ele. E vou confessar, muitaaaaas vezes eu mesmo vou lá nas fotos para olhar aquele rostinho tão lindo, com aquele detalhe tão especial para mim. Me acostumei com aquela ‘cortininha’.

Então, para quem quiser ver, este é meu pequeno Théo, e seu lábio leporino:

E agora, esse alemão coisa fofa:

1 ano e 10 meses, e todo sujo de feijão.

1 ano e 10 meses, e todo sujo de feijão.

Nossas dicas para quem vai passar pela queiloplastia ou palatoplastia

De vez em quando aparecem mães para falar comigo, pedindo ‘alguma luz’ pois seu baby vai passar por alguma das cirurgias reparadoras, queiloplastia ou palatoplastia. Eu confesso, adoro poder ajudar, me sinto orgulhosa disso, pois já passamos e estamos hoje aqui fortes para contar. Hoje eu resolvi resumir aqui em um post para ficar sempre disponível.

Primeiro queria dizer, que é megaaaa normal as mães ficarem nervosas, não se culpem por isso, eu já disse várias vezes que mãe pode ser fraca sim, somos humanas, poxa!

Eu sempre aconselho às mamães a deixarem os bebês o mais isolado possível, alguns dias antes das cirurgias. Eu mesma fiz isso, fiquei com o Théo em casa por umas 2 ou 3 semanas antes do procedimento, para evitar de pegar trocas de temperatura, viroses e outras doenças que pudessem atrapalhar os planos do cirurgião. Além disso, todos que entravam dentro da minha casa, inclusive eu, pedia que fizessem uma higiene nas mãos para evitar de passar algo para o Théo. Pode parecer meio chato, mas eu fazia mesmo, por conselhos da pediatra até, pois assim eu deixei ele bem forte mesmo para o dia da cirurgia.

Bom, chegando no dia da cirurgia, FIQUEM TRANQUILOS PAPAIS, mesmo! Quanto mais calmos ficarem diante do baby, mais calmo ele mesmo irá ficar, não se desesperem… Eu sei muito bem do que estou falando, pois já passei por dois procedimentos com o Théo, eu sempre confiei muito nos médicos e enfermeiros que nos acompanhavam, então, se eles me diziam que era NORMAL ele demorar para acordar da cirurgia, eu fica tranquila. Se me diziam que era NORMAL ele ficar mole e sonolento, eu acreditava. Normal ficar sem mamar nas primeiras horas, talvez dias, eu acreditava… E por aí vai, sempre tirem suas dúvidas com os profissionais, mas fiquem tranquilos e passem tranquilidade para o filhote, isso faz MUITA diferença. Pensa, o Théo ficou sem mamar por 3 dias depois da queiloplastia, e depois, com muita persistência nossa, ele voltou a mamar! :)

Sobre a alimentação: eu tentei de várias formas, tanto na primeira quanto na segunda cirurgia. A seringa nunca funcionou conosco, então fui tentando de outras formas, mas o mais importante era persistir. Como diz a nossa pediatra: INSISTA, PERSISTA E NÃO DESISTA! De alguma forma ele vai se adaptar para mamar. Nós tentamos com a mamadeira de colher na ponta, muitas mamães tem sucesso com isso, o Théo não gostou. Nós usamos o próprio bico da mamadeira dele, aquele especial para lábio leporino que eu mostrei em outro post (clica aqui), e eu ia apertando lentamente para que fizesse alguns mini jatos de leite na boquinha dele, e assim ia mamando. Na segunda cirurgia, ele preferiu com um copo mesmo, eu usei um da Avent que ele amou, e usa até hoje (clica aqui para ver qual eu falo).

Quanto às talas, infelizmente, eu digo que tem que usar sim! Claro que, na palatoplastia eu liberei ele um pouco mais para ficar sem, nos momentos que eu estava 100% de olho nele, até por que os pontos eram internos, então o perigo de machucar diminui. Mas eu fazia isso só quando eu estava cuidando mesmo. Na queiloplastia sim, eu deixei quase 100% do tempo de tala, me doía muito ver ele sem mexer os bracinhos, mas é necessário, né, gente? Temos que pensar que eles precisam disso para evitar de se machucar!

No mais, posso dizer que os bebês ficam sim, muito chateados nos primeiros dias, mas deem muito amor e carinho, tudo volta ao normal, podem ter certeza! E boa sorte!

Um olhar torto

Acho que não é por mal, mas tem pessoas que fazem comentários desnecessários.

Esses dias, estava eu passeando com meu filho, e eis que um senhor começa a brincar com o Théo, até que o olhar dele mudou. E surgiu a pergunta: ‘Nossa mãe, o que houve com a boca dele? Ele caiu? Nossa, levou até pontos… Deve ter se machucado feio.’

Eu respondi com muita educação dizendo que ele havia nascido com fenda lábio palatina, ou mais comumente chamado de lábio leporino. E ele mal respondeu de volta, e saiu andando com o olhar torto.

E eu pensei… O que passou na cabeça dele, né? Que eu era uma mãe desatenta, que de repente deixei ele se acidentar? Ou depois, que eu devo ter feito algo para que meu filho nascesse com problema que teve?

Bom, eu procuro não levar esses meus pensamentos muito adiante, acho que não fortalece, e não nos ajuda. Mas eu realmente gostaria que meu filho, que não tem ainda capacidade de raciocínio de adultos, passasse por esses olhares tortos. Acho que a pessoa se importar e falar coisas positivas, é super legal, agora um olhar diferente, que faz se sentir mal… Isso não precisava.

Pronto, desabafei aqui.

Sou um fissurado – o outro lado da história

E como a vida é vista por um fissurado? Nós, mães, sabemos o que passamos, o que sentimos… Mas e quem está realmente sendo um fissurado? O que sente? Hoje, aqui, um relato muito verdadeiro e real, sobre como é ser fissurado e um pouco do caminho até hoje, a história do Hugo – filhote da Eunice, que falamos aqui no blog essa semana.

É, sou um fissurado nascido com um Dom que Deus me ofereceu.

Ser um fissurado é algo diferente em todos os sentidos. Você já nasce praticamente na sala de cirurgia (só fiz 11 até hoje…), sendo a primeira com 3 meses. Imagino como é uma situação diferente para os pais de um fissurado viverem esse momento. E é por isso que venho por meio deste, tentar abrir as mentes dos pais a respeito da real atenção e “tratamento” não apenas para com seus filhos fissurados, mas principalmente com os filhos fissurados de outros pais.

Hoje estou com 30 anos, sou filho de pais separados, noivo à 4 anos e moro em Curitiba à 7. Sou nascido em Brasília-DF.

Minha infância foi normal. Cresci sendo educado e criado por uma mãe que me ensinou e sei que aprendeu junto comigo o que é viver.

Ela jamais me tratou como um doente, um coitado e etc como muitos, e digo MUITOS pais o fazem. Tratam eles como “coitadinhos”, “eles são doentes”… entre outros adjetivos. Quando na verdade são apenas crianças que devem conhecer o respeito e a educação como qualquer outra.

Eu nunca fui “Flor que se cheire”, rsrsrs, e minha mãe mesmo concorda, e aprontei bastante. BASTANTE MESMO. E fui também bastante corrigido. Hoje dou graças a Deus por ter tomado cada cintada que ela me deu. Foram elas o último recurso para que eu aprendesse. E sei que doía mais nela do que em mim.

Sempre tive muito amor, muito mesmo. Fui ensinado a respeitar, e ser educado e a não me rebaixar perante aos que não me consideravam “normal”. Minha mãe me ensinou.

Confesso que existe um período em nossas vidas que é bem complicado: A adolescência. Quando passamos a ter outros interesses, queremos nos “mostrar”, nos adaptar aos outros (sim, somos nós que acabamos nos adaptando aos outros) e querendo uma vida “normal”. Namorar, sair, se divertir e etc…

É complicado.

Primeiro por quê as pessoas não te olham como alguém e sim como “O que é isso?!”, segundo por termos uma cicatriz devido nossas cirurgias e terceiro por não termos uma dicção, ainda que boa, normal.

Venho de uma época em que não existia o “termo pop” Bullying. Era sacanagem mesmo, gozação das brabas. E simplesmente por sermos diferentes e essas pessoas serem ignorantes.

Nós, fissurados, ou pelo menos eu, nunca ouvi quando falo minha verdadeira voz. Ou melhor, as pessoas não a escutam. Para mim, ela sai como eu escuto as outras vozes – me recordo até hoje a primeira vez que, brincando com um gravador, voltei várias vezes a fita achando que tinha algo errado, quando na verdade, aquela era a minha voz. Mas não é isso o que acontece. Mesmo tendo feito fonoaudiologia, sei que ela hoje é menos fanha do que no passado, e dizem que tenho uma boa dicção hoje.

Então você imagina como deve ser falar algo que você quer, e as pessoas não entenderem. É irritante, frustrante.

Graças a Deus isso foi superado.

Ainda hoje noto certas pessoas que não entendem algo que digo, mas não me incomoda. Repito sem ter a raiva que já tive.

Comprovei que o fissurado é preconceituoso com ele mesmo. E quando passa a não entender o porquê não é bem visto, o porquê não entendem o que ele fala, é rejeitado por colegas de escola e até mesmo por suas “paixões adolescentes”, isso nos transtorna. É muito ruim ver, saber e se sentir rejeitado. E isso não é desculpa para se diminuir perante esses ignorantes.

Eu mesmo consegui enxergar o quão diferente é na verdade aquele que te rejeita. E não você, fissurado.

Em meu tratamento no Centrinho pude ver que nossa situação é na verdade algo que nos fazem melhores. Que existem “problemas” e pessoas com situações e vidas bem mais complicadas que a nossa. E que mesmo vivendo assim, essas mesmas pessoas vivem alegres, sorridentes e com uma luz e energia que te fazem ver o quão ridículo é quem se deixa abater por causa dos outros.

Por isso hoje, sempre que conheço alguém com filho fissurado, sempre procuro ajudar, aconselhar e indicar os meios necessários para que esse ser de luz possa ter uma boa vida. Quando estou no Centrinho e consigo acesso às enfermarias onde ficam os recém operados, gosto de falar com eles e mostrar que eles não tem mesmo o porquê de se revoltarem e se entristecerem por serem “diferentes” de seus colegas. Na verdade somos melhores que eles.

E é isso que falta muito para os fissurados: Apoio.

A Fenda Lábio Palatal, não é uma doença. Apenas uma má formação congênita. E por isso ela ainda assusta muita gente que não a conhece.

Não existem “Criança Esperança” e nem “Tele-Tons” que falem de nós.

Então de fato, o nosso maior problema hoje é a ignorância que encontramos no dia a dia.

Eu mesmo já perdi emprego em uma entrevista por que acharam que eu era uma pessoa violenta, por causa da minha cicatriz e meu nariz torto. E sempre há aquelas perguntas: “Você caiu?”, “Foi acidente”, “Foi briga?”, e as mães também não escapam delas. Os “mais antigos” acreditavam que nós nascemos assim por elas terem usado ou colocado uma chave no pescoço. Essa é hilária.

Espero mesmo que minhas palavras possam ajudar e a abrir as mentes de várias pessoas. Essa página/blog é algo que me faz acreditar ainda mais no crescimento e na evolução do ser humano. A atitude da Priscila é de uma importância que ela não sabe ainda o tamanho, mas que com certeza ela irá.

Fiquem com Deus e muito obrigado pela atenção.

Até breve…

Hugo Ramon Felinto Cândido.

Fissurado pela Mãe - Hugo

Ser mãe de fissurado

Ter um filho fissurado é ser escolhida para cuidar e ajudar uma pessoa a seguir um caminho com mais auto estima, a superar um problema que não é apenas físico, mas que envolve e muito o psicológico. Ele não possui nenhuma deficiência e isso tem que ser reforçado, mas se sente diferente dos outros por possuir uma cicatriz e a fala ser um pouco diferente dos outros e por incrível que pareça ninguém quer ser diferente, principalmente na adolescência, querem ser igual aos outros e aí, buscamos em Deus a melhor maneira de mostrar tudo de bom que este ser já possui para ser feliz. Que a única limitação que ele pode possuir está dentro dele e deve ser superada e olhada como mais um aprendizado na estrada da vida. Que ele pode tudo e basta querer e seguir em frente com amor e fé. Nunca tratar como um coitadinho, pois ele é igual a qualquer pessoa, e deve ser preparado para o mundo.

É uma tarefa difícil, mas compensatória, uma trajetória de muitas vitórias a cada degrau e eu que tenho hoje um filho aos trinta anos de idade e que já passou por muitas coisas, agradeço a Deus e ao Centrinho-Bauru, todo o apoio que precisei. O Centrinho não é apenas um hospital que trata de fissurados, é um lugar que trata o paciente em todos os detalhes, em que se está nas mãos de mestres e não apenas médicos e que acima de tudo trata de nossos filhos como seres humanos e de nós como mães que nos angustiamos, sofremos, ficamos inseguras e com o coração pequenininho a cada vez que nossos filhos entram num centro cirúrgico. Eles são profissionais que entendem os sentimentos e respeitam cada limitação a que possuímos e oferecem um tratamento completo acompanhando todo o desenvolvimento físico e psicológico que essa criança vai passar. Por isso agradeço a Deus a existência do Centrinho e o presente que recebi ao ter esse filho tão maravilhoso fazendo parte de minha vida e com quem eu também aprendi e cresci como ser humano.

Eunice Felinto Nascimento, mãe do Hugo.

Fissurado pela Mãe - Hugo